Aldous Huxley escreveu o livro Admirável Mundo Novo ,em 1932. Neste livro de ficção,as pessoas são criadas dentro de um gigantesco laboratório. Todos os seus orgãos são projetados biologicamente. Suas vidas são pré-determinadas. A inteligência e a capacidade para desenvolver funções são programadas, mesmo antes, do seu nascimento. Seu destino já está marcado. Ao nascer, a programação continua. Com o corpo formado chegou a vez dos seus valores pessoais, suas crenças, sua cultura, sendo sempre, é claro ,de acordo com os administradores desse “Mundo Novo”. Tudo seria perfeito se não fosse por um detalhe: as “criaturas” pensam.
Embora o livro não seja o único exemplo de um tema tão intrigante , fica a reflexão em nós. É possível dar vida a um ser criado em laboratório? Se for possível, como ele seria? Em alguns exemplos, como no filme “A Ilha” em que o personagem principal, criado em laboratório, começa a questionar seu cotidiano, suas dúvidas o levam a descobrir que ser humano dá trabalho e não é para qualquer um. Neste ponto, Aldous Huxley foi mais precavido, criou o “soma”, um comprimido capaz de sanar qualquer mal-estar gerado pelo excesso de pensamentos, pois por incrível que nos pareça, os escritores e diretores de ficção científica insistem em dar conflitos aos seus personagens.
Talvez a maior questão não seja se é possível criar um clone humano, mas como criá-lo, sem conflitos. Quem sabe, a tão sonhada perfeição não seja símbolo de beleza divina, mas capacidade para viver um dia de cada vez sem precisar recorrer ao “soma”. O “soma” pode ser comparado ao consumismo. É normal dizermos que nada como um bom passeio ao shopping para melhorar nosso astral. Existe algo em nós que desafia os melhores cientistas, uma insatisfação e a procura por algo que não sabemos exatamente o quê, mas incomoda toda nossa existência.
Quem sabe, esses quês sejam a causa da evolução do indivíduo. Tantos questionamentos que permeiam o ser devem ter lá seus propósitos. O cientista também sente essas questões formigando em seu íntimo e emprega sua vida na busca de recursos tecnológicos que nos possibilitem menos sofrimento interno. Prova disso, é o grande avanço das pesquisas médicas.
Se fossemos pelo caminho das religiões estudaríamos que fomos criados por Deus. Verdade ou não, o desafio da criatura é superar seu criador. Os cientistas têm tentado. E nós, pobres mortais, também. Cada um, a sua maneira, procura superar todos os dias seus próprios desafios. Cada um tem seu “soma” próprio. Basta torcer, para que em nome da evolução, o soma de alguns não seja a destruição de outros.